sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

POR QUE É QUE AS ESTRELAS PISCAM?

A criança perguntou ao pai por que é que as estrelas piscam.
O pai sorriu, daqueles sorrisos que já sabem a história, e respondeu com voz de quem guarda segredos do céu.
As estrelas piscam para não adormecer — embora, na verdade, as estrelas nunca durmam. Piscam porque gostam de fazer companhia a quem olha para elas. Lá do alto, observam tudo com atenção e já perceberam que precisam de orientar os pássaros, os aviões, os barcos… e até alguns distraídos que caminham pela noite. São os faróis do mundo.
Quando os pássaros querem visitar as suas famílias, seguem destemidos pela aventura. Não precisam de GPS nem de mapas. Os pássaros sabem ler — não as letras, mas os céus. Olham para as luzinhas lá em cima, a tremer de alegria, e já sabem por onde devem seguir. Às vezes até agradecem com um chilrear mais afinado.
Os aviões, apesar de carregados de tecnologia, continuam a preferir conversar com as estrelas. Às vezes, quando chegam aos aeroportos, começam a andar aos círculos no céu. Os humanos pensam que é por não haver vaga para estacionar, mas não: os aviões fazem de propósito, só para prolongar a conversa mais um bocadinho. Nos aeroportos não podem falar, os humanos diriam logo que eles estão loucos.
Os barcos, por sua vez, distraem-se a conversar com os peixes, que têm sempre histórias compridas para contar. E como não têm faróis próprios, como os carros, quando estão longe da costa e os faróis da terra já foram dormir, precisam das estrelas para ver o caminho. As estrelas piscam mais forte nessas noites, para que nenhum barco se sinta sozinho.
Mas quem mais precisa das estrelas são os meteoritos, que andam sempre apressados e às vezes perdem-se no caminho. Um dia encontrei um deles perdido no areal da praia. Estava assustado, cheio de areia, e tive de o limpar com cuidado antes de lhe indicar o caminho de volta para o céu. Já recomposto do susto — porque cair na areia faz um barulho terrível — fiz‑lhe uma festa e disse‑lhe por onde devia seguir. Quando já ia bem alto, olhou para trás a sorrir e disse que as estrelas lhe tinham falado muito da Joana, e pediu‑me que lhe desse muitos beijos.
A criança sorriu. Percebeu logo que os beijos eram para ela.
O pai continuou, baixinho, com aquela voz que só se usa para contar segredos do céu:
— É que as estrelas sabem tudo.
E é por isso que estão sempre a piscar: para que ninguém, mas mesmo ninguém, se perca.
Como já era tarde, o pai estendeu-lhe a mão. E os dois seguiram para casa, devagarinho, a sorrir para o céu que piscava de volta.
Fernando Alagoa © 2026 | Todos os direitos reservados

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