A mãe pousou a colher de madeira com a mesma delicadeza que colocava nas palavras — ainda a escorrer um fio de chocolate dourado que parecia luz derretida — e sorriu como quem abre uma janela para a felicidade.
— Uma biblioteca, meu amor, é uma fábrica muito especial. Não fabrica chocolates, nem brinquedos, nem máquinas barulhentas. Fabrica histórias.
— Histórias… como doces? — perguntou a criança inclinando a cabeça, curiosa.
— Algumas são doces, sim. Outras são amargas como cacau puro. Outras estalam na língua como faíscas. E há as que são tão leves que, se não as leres depressa, voam para longe.
A mãe abriu a porta do quarto e, como se o ar tivesse decidido sonhar acordado, o espaço esticou-se, ondulou, e transformou-se numa sala imensa. Não era bem uma sala, era como entrar na engrenagem de um relógio feito de bengalas de rebuçado e sombrinhas de chocolate. Tubos de vidro serpenteavam pelo ar, transportando lembranças líquidas: risos que borbulhavam como água a ferver, cheiros de infância enrolados em espirais de cor, lágrimas que brilhavam como pequenas estrelas. Máquinas delicadas, com rodas que pareciam pétalas e alavancas que pareciam asas, moldavam memórias em páginas. Cada página, ao tocar outra, fazia um som suave, como um beija-flor, e transformavam-se num livro.
— Ali, guardamos as memórias que as pessoas perderam. São frágeis, sabes? Como açúcar em dias de chuva — disse a mãe, apontando para uma máquina que respirava rios de luz azul.
E depois apontou para outra, maior, que pulsava como um coração adormecido.
— E ali guardamos as que ainda não aconteceram. Essas são as mais tímidas. Não gostam de ser vistas antes do tempo.
A criança aproximou-se de uma estante que parecia crescer à medida que ela se aproximava. Havia um livro com o seu nome. Quando o abriu, um vento suave soprou-lhe no rosto. Um vento que cheirava a futuro, a possibilidades, a coisas que ainda não tinham aprendido a existir.
— Mãe… isto existe de verdade?
A mãe riu, limpando um salpico de chocolate da testa da criança com o polegar. O toque deixou uma pequena mancha brilhante, como se lhe tivesse pintado um raio de sol.
— Claro que existe. Uma biblioteca é um cofre de memórias e uma fábrica de histórias futuras. Só precisa de alguém suficientemente curioso para as realizar.
Fernando Alagoa © 2026 | Todos os direitos reservados

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